Relato de Violência Obstétrica – o relato da minha 2a cesárea – o nascimento de Arthur


Aqui a orelhinha dobradinha, e com vernix dentro, que não deixa dúvidas, de que ele foi tirado antes da hora da minha barriga.

Aqui a orelhinha dobradinha, e com vernix dentro, que não deixa dúvidas, de que ele foi tirado antes da hora da minha barriga.


Minha segunda cesárea desnecessária foi há cinco anos, em outubro de 2007 quando engravidei pela segunda vez. Tinha convicção de que teria um parto normal. A convicção era tanta de que parto normal é normal, ou seja, não precisa de nada – ele deve acontecer naturalmente, que não me informei, não questionei os 5 obstetras pelos quais passei, não me preparei. Talvez pelo acontecido na primeira gravidez, eu não me sentia grávida nessa segunda. Me sentia doente. E todos os médicos pelos quais passei reforçavam esse sentimento. A segunda gestação foi cheia de cuidados, tive sangramento no 1o. trimestre, repouso novamente, hormônios  troquei cinco vezes de obstetra, porque ao meu ver, nenhum deles dava a devida atenção ao “estado especial” em que me encontrava. Cada dorzinha, ou suspeita de algo não estava bem, corria para o hospital, a fim de escutar o meu bebê, ou para o consultório do médico. Me sentia tão fragilizada, tão ameaçada e desamparada que obviamente, acabou prevalecendo novamente a decisão maioral do médico, quando em uma consulta de rotina às 37 semanas, me mandou ao hospital no dia seguinte pela manhã para realizar alguns exames. Um dos exames detectou índice de líquido amniótico muito baixo (ILA = 2,5), o que colocaria meu filho em sofrimento fetal: “seu filho tem que nascer hoje”, foi o que ouvi. Então perguntei: “Então o senhor vai induzir o parto?” – e a resposta: “De jeito nenhum. Seu bebê não aguenta. Não tem líquido para ele minha filha”. Portando um baita barrigão, sentei no corredor frio do hospital e desabei a chorar. Cinco enfermeiras me cercaram e me disseram que era melhor assim, pois meu bebê era muito grande! Isso era 9 da manhã. Me mantiveram presa no hospital, não me deixaram ir pra casa pegar a minha mala e a do bb pq meu bb estava em risco. Era tão perigoso que só me operaram as 17:45, quase 9 horas depois. Passei as piores 9 horas da minha vida sozinha naquele hospital, internada sem ninguem ao meu lado. Apenas durante o horário de visitas meu marido e duas amigas do trabalho entraram. Entrei aos prantos no centro cirúrgico. Perguntei pelo meu médico e não tive resposta. Eu não conhecia aqueles rostos que estavam me operando. Mas foi meu medico do pre-natal quem me recebeu,  me internou e decretou a cesárea. Passei mal a cirurgia inteira. NÃO DEIXARAM meu marido entrar para a cirurgia. Sofri uma baita pressão de fundo de útero para que meu bebê pudesse sair. Tive hematomas na região da costela por uma semana ou mais. O comentário durante a cirurgia: “Ué… mas tá cheio de líquido amniótico aqui. Empurra! Empurra que está alto!”. E um super barulho do aspirador de liquido. Depois de muito brigar, meu marido conseguiu entrar e me viu sendo suturada e o nosso bebê largado chorando numa mesa gelada, ao invés de estar no meu colo. Não pude pegá-lo. Estava com os braços amarrados, só senti o seu cheirinho, dei um beijo e o levaram para observação pois estava “gemente”. Claro! Um bb de 37 semanas submetido a uma cesárea desnecessária, só podia nascer gemente…. Não estabelecemos o vínculo na sala de cirurgia, não houve contato pele a pele, não foi colocado no meu peito na primeira hora como preconiza a OMS e o MS e como o hospital havia “vendido a idéia” por ser um hospital amigo da criança. Meu filho nasceu cheio de vernix, lanugo e com a orelhinha dobrada. Prematuro.
Pelo menos desta vez, o alojamento foi conjunto. Meu filho foi para o quarto duas horas depois de ter nascido, meu leite veio mais facilmente. Consegui amamentar melhor do que da primeira vez. Tive um pouco mais de apoio das enfermeiras quanto à amamentação. Meu marido só podia entrar nos horários de visita. Não cumpriram a lei do acompanhante. Mas saí com a mama em carne viva, sangrante, por não conseguir uma posição confortável pra amamentar devido à forte dor que eu sentia no abdomem por causa da Kristeller. Nove anos depois, novamente me sentia angustiada. Impotente. A única certeza que eu tinha era de que não engravidaria outra vez, pois fizeram questão de me avisar na alta que após duas cesáreas eu teria que me submeter a uma nova cesárea. Tive dores horríveis ainda no hospital, fui medicada com um remédio fortíssimo a base de morfina e mesmo assim a dor não me deixava curtir meu bebê, amamentar com prazer. Sofri horrores com uma dor insuportável na barriga devido à manobra de Kristeller durante a cesárea. A minha recuperação da segunda cesárea foi muito pior do que a primeira. Eu me sentia impotente e responsável por aquilo, mas não sabia o por que. Eu só sei que a única certeza que eu tinha naquele momento, era de que não teria outro filho jamais. Não tinha condições psicológicas e físicas de encarar uma nova cesárea e muito menos toda violência psicológica e física pela qual eu e meu bebê havíamos sido submetidos…
Meu meninão, hoje com 5 anos! <3

Meu meninão, hoje com 5 anos! <3


Sobre Gisele Leal

- Acompanhamento da Gestação - Preparação para o parto (individualmente ou em grupos) - Consultoria para a escolha de profissionais e locais de parto - Elaboração do Plano de Parto - Dia da Despedida da barriga, barriga de gesso - Acompanhamento do Trabalho de Parto, Parto e Pós-parto imediato - Assistência ao Parto e puerpério - Consultoria em Aleitamento Materno - Fotos do parto, da família e da gestante

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