Relato de Parto Domiciliar – Luciana e Iolanda


Relatos de parto sempre são inspiradores. Mulheres felizes e orgulhosas de terem parido sempre nos enviam relatos para que estes possam servir de exemplo, inspiração e coragem para aquelas que estão no processo de empoderamento em busca de uma experiencia prazerosa e de plenitude.

Por Luciana Cavalcanti, a mãe e parideira 🙂

Iolanda, nascida numa madrugada de finalzinho da fase de lua cheia, de chuva e muito vento, próxima do mar, em 10.07.2012, às 2h20, com 3200 kg, 51 cm, de parto domiciliar, sem intervenção alguma, no chuveiro, em 5 horas e 20min (trabalho de parto ativo + expulsivo). Nasceu no apartamento da enfermeira obstetra/ amiga/ prima, que também assistiu ao parto, Tatianne Cavalcanti Frank no bairro de Boa Viagem, em Recife, Pernambuco ao lado do meu marido Jean Carvalho e de nosso primogênito Pedro. Fomos acompanhados pela anja da guarda a obstetra Melania Amorim, pelas doulas queridas Dan Gayoso e Mariana Portella e pela grande amiga e fotógrafa Vladia Lima. Não estavam presentes em corpo físico, mas colaboraram de longe com a vinda de Iolanda, minha irmã-amiga Ana Renata Coelho, a obstetra Leila Katz e o casal obstetra Jorge Kuhn e Esmerinda Cavalcante dois dos principais motivadores do meu desejo de parir com humanização e querer tudo mais na vida cada vez com mais amor, respeito, liberdade, garra e protagonismo.

A NOTÍCIA DE MAIS UM REBENTO

Desde que Pedro veio ao mundo, a vontade de parir mais um filho era permanente, pois a alegria de ter nosso primogênito foi tamanha, que queríamos mais um rebento. Também pensávamos que seria muito bom dar um irmão (ã) para ele. Pois em 06.11.2012 no dia que eu e Jean – meu marido – fomos ao estádio do Morumbi em São Paulo, para o show do Pearl Jam – banda que gostamos muito – soubemos que iríamos dar a luz a mais um ser humano lindo. Não estávamos planejando exatamente, mas a notícia veio com muita felicidade. Passei o show inteiro protegendo a barriga. Soube meia hora antes de chegar ao local do show, pois fiz o teste de farmácia sempre infalível no banheiro do escritório do meu amigo e parceiro de trabalho Otávio Nazareth. Pensei se deveria fazer o teste antes ou depois do show. Não aguentei de ansiedade. O grande sonho de Pedro era ter um irmão ou irmã. E quando contamos a ele todos choramos juntos… Pedro dizia o tempo todo: eu não acredito, eu não acredito, estou muito feliz!! E chorava!! E coincidentemente pelo previsto, nasceria no mesmo mês de aniversário de Pedro, que veio ao mundo no dia 16.07.2003. Mais uma felicidade para ele! A DUM (data da última menstruação tinha sido 30.09.2011. E a DPP (data provável/ improvável do parto) seria 06.07.2012.

A GRAVIDEZ
Foi uma gravidez tranquila, apesar de alguns enjôos, uma virose e a azia de sempre (que tive na gravidez de Pedro também) e do incômodo de uma incontinência urinária. Pulei muito carnaval em Olinda e Recife (foi ótimo). Mas eu não estava fazendo exercícios, estava sedentária (sempre andei de bicicleta, mas neste período estava parada) e nem exercício para o períneo eu estava fazendo. Eu me esquecia ou, confesso, tinha preguiça. Dan alugou para mim o EPINO para exercitar o períneo, mas eu me esqueci de usar. No final da gestação eu tinha aumentado somente sete quilos do meu peso anterior.
Desta vez, engravidei aos 39 anos e pari aos 40, depois de nove anos de Pedro (quando ele nasceu eu tinha 31). Do mesmo jeito que fiz  com Pedro, decidi ir com oito meses de gravidez para Recife, minha terra natal para que este bebê viesse junto do mar, do calor, perto da minha mãe – por ela ser idosa e não poder vir até a mim em São Paulo eu queria estar perto dela neste momento. E, Nossa Senhora!!! Como o mar e o sol me fazem bem e me trazem para dentro e para fora!!!… Recarregam completamente minhas energias!! Moro em São Paulo há 12 anos, mas infelizmente não tenho muitas oportunidades de ter mais contato com as praias do litoral. O bom que no mês que fui para Recife, em junho, (eles chegaram 10 dias após minha chegada em Recife) iniciavam as férias de Pedro na escola e as de Jean do trabalho. Enfim, parecia que tudo tinha sido planejado…
Minha primeira consulta desta minha gestação foi com a enfermeira obstetra Ana Cris Duarte aqui em São Paulo perto de minha casa. Minha idéia inicial era fazer meu pré-natal com Ana e com o querido amigo obstetra Jorge Kuhn revezando por uma questão de logística e outras questões. Decidi no final das contas então ser atendida somente por dr. Jorge – incentivada pela própria Ana Cris – ele que fez meu pré-natal na gravidez de Pedro. Estava envergonhada por estar passando por dificuldade financeira… Enfim, problemas que foram resolvidos posteriormente.
Jorge Kuhn, como todos os participantes da causa da humanização no parto sabem, é um dos médicos pioneiros desta discussão. Numa matéria realizada pela imprensa em junho de 2012, Jorge se posicionou favorável ao parto de baixo risco domiciliar, o que causou a revolta de médicos intervencionistas no Brasil. Fiquei sabendo disso em Recife, o que me deixou muito indignada e lá participei junto com várias outras mães gestantes da Marcha do Parto em Casa, em favor também de Jorge Kuhn (pintei na barriga “I love Jorge Kuhn”) e pelo direito de escolha do local do parto, com meu/ minha rebento na barriga já presente ativamente em um movimento. Em Recife, a doula Dan Gayoso foi uma das grandes responsáveis pela divulgação e organização da Marcha. Jean e Pedro foram junto comigo ao Marco Zero em Recife participar da Marcha que aconteceu também em outras cidades do país e que foi um marco pela humanização e em favor do dr. Jorge Kuhn.

ONDE FOI E QUEM ASSISTIU AO MEU PARTO?
Em São Paulo felizmente, por sorte e semear tenho também alguns anjos da guarda. Dois deles são o lindo casal: Jorge Kuhn e Esmerinda Cavalcante, meus queridos. Dois médicos obstetras humanistas e pessoas mais do que especiais na minha vida. Em 2008, salvaram de certa forma minha vida quando sofri um AVC hemorrágico e fui atendida rapidamente, não ficando com sequela alguma. São realmente principais responsáveis por hoje em dia eu fazer as coisas com mais amor, por querer ser cada vez mais respeitada e buscar a humanização em tudo. Sempre cito que meu sonho é um dia parir com Jorge e Mema assistindo ao nascimento. Mas confesso que minha mãe, o mar, o sol e o vento de Recife ganharam prioridade e tive que me render a deixar este desejo para depois, quem sabe. Queria ter levado Jorge para Recife, mas infelizmente e felizmente há mais parturientes na vida dele além de mim. O caro Jorge, num dos almoços na minha casa anos depois do nascimento de Pedro indicou, mesmo antes de eu engravidar novamente, alguém a sua altura e amor que pudesse me acompanhar em Recife de maneira humanizada como ele acompanharia: Melania Amorim!! Escrevi para ela três anos atrás dizendo da indicação de Jorge Kuhn e afirmando que quando engravidasse do segundo (a) filho (a) iria procurá-la. Logo de pronto me respondeu dizendo que aguardaria minhas notícias. E que pessoa maravilhosa!! Que profissional repleta de evidências, estudo e conhecimento!!
Então chegou o dia! Fui procurar a obstetra Melania Amorim logo que soube desta gravidez de agora e tive uma conversa com ela numa de suas vindas a São Paulo (nesta vinda, conheci o filho mais velho dela – André – e vendo o amor imenso dela por ele, percebi o quanto tinha feito a escolha certa em procurá-la). Encontramos mais outras três vezes em Recife, em duas destas estava também a querida comadre e companheira de trabalho de Melania, Leila Katz.
Melânia mora em Campina Grande, Paraíba e por este motivo, dependendo do desenrolar do meu trabalho de parto, talvez não desse tempo dela chegar em Recife. Então a idéia era que Leila pudesse ficar de sobreaviso e me assistir, caso não desse tempo para Melania aportar na cidade.
Porém, de quebra tive a enorme sorte de conhecer via minha amiga Ana Renata outra tão alta nos dois aspectos (físico e profissional, e conhecedora demais do assunto, além de alma primorosa) a enfermeira/ obstetra e prima(?!) Tatianne Cavalcanti Frank. E veio a enorme dúvida: com qual delas parir? Quem poderia assistir ao meu parto agora? Já que no de Pedro fui nada assistida no Hospital Esperança, não queria passar pela mesma briga agora com este segundo (a) filho (a). E por causa de todas as imposições médicas indevidas adotadas no hospital durante meu TP de Pedro, decidi então ter um parto domiciliar desta vez. Queria ser super assistida então, se fosse necessário, por gente séria e comprometida e principalmente, humanizada e que eu não tivesse que ir à maternidade de urgência e ser atendida por médicos intervencionistas já bem conhecidos por mim no primeiro parto. E foi assim que decidi e decidimos todas juntas que meu plano de parto teria Tati e Mel perto de mim, além de minha doula Dan Gayoso, que tanto me ajudou e virou querida amiga desde o ano de 2011 e os olhinhos carinhosos de Mariana Portella, doula acompanhante. Leila teve um problema
de saúde e não poderia então ficar como stand by. E infelizmente não há mais profissionais da área médica em Recife além de Leila Katz, Tatianne Cavalcanti Frank e Melania Amorim comprometidos realmente com a causa da humanização do parto e este sem intervenções desnecessárias. Há algumas parteiras – contadas nos dedos de uma mão – com enorme prática, mas profissionais como médicos e enfermeiros não há. Se eu precisasse de um hospital por alguma complicação, o que eu faria sem Melania ou Leila, já que Tati, enfermeira não teria permissão pela maioria dos hospitais  de entrar? Essa foi uma questão problemática que passou pela minha cabeça. Não há profissionais suficientes da linha da humanização no Brasil. Isso é uma terrível realidade e nos colocamos numa posição de reféns do sistema. Mas enfim, contei com o pensamento que tudo sairia do jeito que eu estava planejando. Eu estava até querendo parir sozinha no mar, se hovesse a chance de um mar calmo, tranquilo, limpo e durante o dia… Mas era querer demais.
Em Recife não havia lugar onde parir que não fosse numa maternidade. Visitei o Santa Joana e o Alpha que meu plano cobria. Fiquei indignada com o atendimento hoteleiro dos dois. E fui fazer esta visita só para ter duas opções para o meu plano B de hospital. Enfim, na casa de minha mãe não haveria condições por eles serem idosos e não conseguirem acompanhar o processo de maneira tranquila. apoiaram o plano de nascimento domiciliar de Iolanda, acharam lindo e muito bom, mas na casa deles seria difícil para acompanharem, segundo disse minha mãe. Eu ficaria preocupada em preocupá-los de alguma forma.
Por isso em um encontro no grupo de gestantes do Boa Hora, coordenado pela doula Dan Gayoso, eu afirmei precisar de um canto para parir. Não me incomodaria se fosse em um taxi, na praia, numa rua deserta, contanto que eu pudesse parir em paz e sem absurdos!! Tranquilidade era o que eu queria e sabia que se fosse novamente para uma maternidade eu sofreria mais uma vez e brigaria com certeza. E eu não queria isso de novo. Queria realmente um espaço onde eu tivesse liberdade de movimentos, diálogo, respeito, informação, onde eu pudesse comer na hora que quisesse, andar, deitar, levantar, enfim, paz de espírito e direito as minhas escolhas.
E neste dia da reunião do grupo Boa Hora a enfermeira Tatianne Frank que estava acompanhando minha amiga Ana Renata ofereceu lindamente sua casa para eu parir. Fiquei emocionada e de início sem jeito, mas no final aceitei e realmente pude me sentir acolhida. Que lindeza!! Além de ter Tati como minha enfermeira eu poderia parir na sua casa!!
Eu não podia acreditar!! Fiquei muito feliz!! E nos planejamos para isso mesmo eu com um baita medo de incomodar. E realmente desta vez pude ser assistida e ter tranquilidade após o trauma de todos os abusos cometidos no parto hospitalar do nosso filho Pedro em 2003. Eu e ele fomos muito parceiros e guerreiros contra as interferências e violência cometidas naquele hospital e da falta de humanização proferida pelos profissionais naquela época envolvidos. Considerei como maravilhoso o nascimento de Pedro, mesmo com toda a revolta e briga, já que fez crescer meu ativismo, minha guerra pela humanização, me fortalecer, pois nunca imaginaria que iria ter tanta força para reivindicar meus direitos em pleno trabalho de parto e expulsivo. Meu plano de parto de Pedro foi quase que totalmente desrespeitado e não lido.
E quem me deu esta garra foi meu Pedro, que já dentro da barriga se mostrou um enorme companheiro de batalha. Fomos reivindicadores e tenho muito orgulho disso!!! Por isso que também, na sua medida, digo que foi um parto empoderado!! Foi um parto normal, cheio de intervenções, com episiotomia, manobras, comigo gritando no centro cirúrgico que só deitaria na mesa se meu companheiro Jean entrasse na sala – um dos diversos pedidos no plano de parto que estava sendo negado a mim naquele momento -, mas me fez pensar e repensar ainda mais sobre o que era realmente “precisar” de um hospital para dar a luz a um (a) filho (a). Pude confirmar o quanto sou forte, tinhosa e brava!! E Pedro também!! E foi um parto que me deu mais conhecimento para numa segunda oportunidade, como agora, ir atrás do que eu queria: um parto humanizado e se possível em casa! Pois nenhuma mulher deve e nem pode e muito menos merece brigar na hora mais importante da sua vida que é no ato de parir. Eu realmente não precisava
daquele hospital em 2003. E nem mais de outro agora.

MEU TRABALHO DE PARTO

No dia 08.07 vejo uma manchinha na calcinha um pouco marrom. E já senti que meu corpo estava se preparando.

No dia 09.07 pela manhã as contrações braxton hicks estavam mais fortes. O meu tampão já tinha saído desde às 3h da manhã, mas não tinha dito nada a Jean, meu marido, até acordarmos umas 9h. Estávamos naquele momento hospedados na casa de um amigo, Antônio, no bairro da Torre em Recife. A idéia era que as contrações aumentando ou ficando regulares iríamos para a casa de Tatianne. Então decidi resolver algumas pendências. Fui terminar as lembrancinhas que resolvi fazer (uma pimenta feita de tecido para trazer bons flúidos), fazer compras de comida, velas para o meu TP, flores, ir à praia… Porque eu poderia ou não entrar em trabalho de parto, já que se sabe que tampões e contrações espaçadas podem vir até com uma semana antes do parto ou mais. De qualquer maneira, comecei a avisar da saída do tampão e das contrações para todos (Dan, Tati, Melania, Leila, Jorge, Mema, Vladia, Ana Renata, Mariana – todos os queridos envolvidos no meu parto). E estava muito calma. Logo à tarde fomos eu, Jean e Pedro ao supermercado junto da casa de Tati. E lá parava em pé em alguns momentos sentindo as contrações e percebendo com calma elas indo e vindo. Marquei com minha querida amiga irmã fotógrafa Vladia Lima, cheia de energia positiva (ela pariu seus dois filhos também em casa) para que ela me fotografasse na praia como tínhamos imaginado (no meu plano de parto eu afirmei querer meu TP caminhando na praia e o fiz). Cheguei na casa de Tati e deixamos as compras de supermercado e logo saímos eu, Pedro e Vladia para a praia. A casa de Tati felizmente fica a uma rua de distância da beira mar de Boa Viagem, uns 500m, perto da feirinha e da igreja homônima do bairro. Jean tinha saído para procurar álcool 70 para limpeza da piscina para o TP.
Na praia as contrações aumentaram ainda mais. Entrei um pouco no mar e já era noite (19h). Brinquei com Pedro na areia, sentei nas pedras, deitei na areia… Tudo sendo fotografado por Vladia, mas também estava concentrada sentindo o vento, a água, a areia nos pés, tudo o que mais queria e tinha imaginado para o meu TP. E Pedro brincando, correndo, rindo, me abraçando, beijando minha barriga, tomando banho de mar comigo… Foi maravilhoso!! E lá na praia mesmo tomei água de côco junto com Pedro e Vladia e voltamos devagar e respirando tranquila para a casa de Tati, embaixo de uma pequena garoa que começou a cair.
Chegamos umas 20h na casa de Tati. Jean ainda estava na rua preso no trânsito e nervoso. Chegou por volta das 20h30. E senti iniciar o TP mais ativo por volta das 21h que foi quando eu só queria me posicionar de quatro e me balançar para frente e para trás, que aliviava as contrações que começaram finalmente a vir mais intensamente e num período regular. Confesso que não medi tempo (se estavam vindo de 30 em 30, de 15 em 15 minutos). Só sabia que estavam mais regulares. O objetivo era não medir tempo. Era sentir meu corpo. Foi quando pedi para Tati e Vladia ligarem para Dan, minha doula, vir me auxiliar nas massagens. Pedro, meu primogênito, desde este momento começou a ajudar muito (como passou a gravidez inteira: me ajudando). Ficava perto segurando minha mão, vinha fazer massagens também, me abraçava, ajudava Tati nos preparativos… Vladia não somente fotografava, mas a esta altura colocava músicas que eu tinha pedido para ouvir de um repertório escolhido por mim e por ela, músicas indianas
relaxantes e muito tranquilas – a música do expulsivo seria e foi a Promentory, do filme “O último dos Moicanos”. As velas foram acesas por ela também. Eu não queria luz intensa ou artificial. Jean me apoiou e me ajudou fazendo massagens na área lombar e nos carinhos tão necessários e confortantes ficando todo o momento ao meu lado e falando todo o tempo que eu era forte, que tudo ia dar certo que eu sentisse meu corpo e me dando muito amor. Tati com seu coração e corpo grandes me dava uma paz e um conforto imensos. Começaram, Tati, Vladia e Pedro a encher a banheira. Eu me posicionava na porta do banheiro, ia muito para a varanda que tinha um vento maravilhoso!! Que sensação boa de liberdade!! Era isso que eu mais queria no meu parto! É isso que queremos
para a vida!! Gente que é gente de verdade por perto… Eu estava com um vestido azul claro de florzinha que adorei ter estado com ele (comprei dias antes junto com Tati na feirinha de Boa Viagem – boa lembrança). Lembro de Dan e Mariana chegando e logo após, Melania. Mas eu já estava numa partolândia tão intensa que não me recordo da ordem dos fatores (quem chegou primeiro e nem a que horas).

Acho que Dan chegou umas 23h e Melania às 00h. Sei que quando chegaram eu vi, abri os olhos que até então só ficavam cerrados e elas me trouxeram uma paz imensa… Mais ainda… Eu só abria os olhos e fechava novamente… Mas sentia todos lá. 

Desde o início do TP sentia vontade de vocalizar e de fazer força. Sempre li que era importante evitar fazer força, que a respiração ajudava no processo todo e que acalmava. Eu ouvia Dan dizendo para escutar meu corpo nas contrações, eu vocalizava, tentava respirar cada vez melhor, mas instintivamente eu fazia força. Não tinha jeito. Queria ter ficado mais voltada à respiração leve e correta. Mas meu corpo dizia outra coisa. Virei bicho mesmo!! Com vontade de sair rosnando, de gritar, de apertar, agarrava o travesseiro igual a um cachorrinho. No parto de Pedro não fiquei assim. Respirei mais tranquilamente. Mas neste segundo parto vinha o sentimento de saída muito forte.

Neste TP eu não briguei com ninguém. E não precisava. Tudo foi lindamente respeitado. Não precisei de nenhum toque. Nenhum!!! Melania, se deitava no chão humildemente – qual médico faria isso num TP?? só dr. Jorge e Mema – acompanhada de sua lanterna e apontava a luz para o meu períneo para visualizar a dilatação. Tati corria de um lado para outro anotando informações no meu partograma (tempo de contração, batimentos do coração do (a) bebê no sonar que a cada 30 minutos eram medidos, no expulsivo a cada 15). E como eu tinha pedido, não queria toque para saber quantos centímetros de dilatação – o que no parto de Pedro foi feito demasiadamente – Melania e Tati respeitaram muito. Levaram um banco para eu sentar e ter mais uma posição relaxada ficando de cócoras e foi o que mais me fez sentir bem, fluir e foi fundamental para alívio dos incômodos do TP na minha região lombar e nas pernas. Adorei relaxar na banheira/ piscina inflável, me sentir bem e dormir em alguns momentos, mas talvez por eu ter pressão um pouco baixa, fiquei com muito frio. A água diminuiu minhas dores nas pernas e as massagens feitas com óleo nos pés e no resto do corpo por Tati, Melania e Dan me revigoravam demais. Essas dores foram das que me queixei e as que realmente me deixaram cansada. Para meu corpo, a posição de cócoras e de quatro foram as melhores. Imprescindíveis!!

 A bolsa das águas estourou duas vezes umas 2h antes do expulsivo, lembro. Num destes foi água da bolsa no rosto de Melania queluciana2 estava deitada avaliando meu períneo. Ela tranquila estava e tranquila ficou sem se abalar com nada. E toque feito, só o meu mesmo, para verificar se a cabecinha do bebê estava coroando (optamos eu, Jean e Pedro por não saber o sexo do bebê). E em alguns momentos, minutos, uma sensação de prazer com aquelas contrações e com meu próprio toque tomaram conta de mim, quase como comparado a um orgasmo. Era intenso… Bom… Nas horas que rosnei tive a plena sensação de orgasmo. Foi ótimo!!! Toques feitos, além disso, só na nuca, nas costas e no corpo através das massagens maravilhosas feitas pelo meu amor Jean, por Dan principalmente e por todos que ali estavam na verdade. Por Tati, longos e gostosos abraços, por Pedroca segurando minha mão e por Melania também e eu sentindo uas mãos na minha barriga, energisando carinhosamente, mas distantes uns 5 a 10 cm, por incrível que pareça. Abri os olhos e lá estavam as mãos de Mel na minha barriga, de longe, mas lá estavam. Energia boa proferida!! E sensação de pulso o tempo inteiro!! Era um pulsar ininterrupto, forte…

Isso foi impressionante! Numa hora formávamos um círculo em volta da banheira: eu, Dan, Mel, Mariana, Pedro, Tati e Jean. Foi lindo! Estava na partolândia, mas presenciei isso emocionada. Uma das cenas mais fortes daquele momento inesquecível. Este círculo e as massagens me faziam ganhar cada vez mais força a cada instante e foram quase anestésicas e determinantes para minha evolução no TP.

Luciana   E virei bicho, como eu queria. Quem me ouve falar pode não entender… Realmente… Bicho de tesão, de amor, de corpo, sentindo minha pele arrepiando, meus batimentos, minha voz (quase como quando ouço uma música que gosto muito, que me deixa em estado transcendente).

E lá vinha vindo que até aquele momento eu não sabia qual era o sexo e pouco importava. Queria que chegasse assim com muito amor. Mas era tanto amor, tanto que foi ali mesmo no banheiro. Sentei na privada, com vontade de fazer cocô, abracei Tati num longo e cuidadoso abraço e fui para o banho no chuveiro, queria muito ir me molhar sentindo o jato de água nas costas e tomar banho. Enquanto me lavava no chuveiro veio uma imensa vontade de ficar de quatro sobre Jean que estava comigo todo o tempo. E senti vir, aumentar, aquela força, aquele aquecimento do períneo e daí nenhum incômodo por dor ou cansaço passou a existir mais. Mas foi muito rápido, muito!!

Pedro neste momento tinha deitado um pouco para dar um cochilo. Foi quando veio o queimar no períneo mais intenso ainda, o que nomeiam de círculo de fogo… E neste momento quando estávamos só eu e Jean no banheiro, as dores nas pernas desapareceram como num milagre, o períneo adormeceu e eu só senti o movimento da cabeça do meu bebê girando e gritei: está queimando mais, está queimando mais!! E de repente todas as mulheres que estavam naquele quarto milagrosamente couberam naquele banheiro e eu não imagino como!! Minha amiga fotógrafa subiu na privada para dar memória ao parir, fotografando sobre o box e quase afogando sua câmera no chuveiro! Que sensação explêndida, sublime, arrebatadora, de imensa felicidade e de poder!! De repente senti cada vez mais os cabelos daquele bebê, que já vinha e veio tão rápido que Jean apoiou a cabecinha com as mãos e Melania se jogou no chão, enfiou as mãos por debaixo de mim ajudando Jean no aparar que eu pedi – no meu plano de parto eu solicitei que eu mesma aparasse, mas naquela posição ficou impossível -, pois do jeito que eu estava eu não iria conseguir segurar o corpinho
que descia muito rápido. A sensação era de como se o bebê estivesse descendo num escorrego ou uma descida de um elevador. E pedi: “SEGURA MELANIA, SEGURA!! “E girando… E como senti este giro… Que coisa linda este giro, lindo, lindo!!! Um ballet, era alguém dançando dentro de mim que me dava uma felicidade, um bombardeio de alegria, uma força que tomou conta de mim, um frio na barriga!!! Era um poder tão grande e eu me senti tão forte, tão única que jamais, pensei, iriam tirar isso de mim. E uma sensação de destampar, de passagem por um túnel… Era uma fusão de sentimentos meus com os do (a) bebê. Uma perfeição!!
Foram estas as sensações inebriantes e ao mesmo tempo esclarecedoras e de repente lá estava!!

luciana3

Às 2h20 da madrugada de uma terça-feira do dia 10.07.2012, uma linda, vivaz e feliz menina!! Que logo que consegui sentar no chão do banheiro com ela enroscada em mim no cordão e me desenrolar (nós duas nos enrolamos com o cordão uma na outra), recebeu uma chuveirada no rosto e ficou tranquila com isso. Não se perturbou. Com aqueles olhinhos curiosos, abertos, estranhando o mundo… E logo calma veio para o meu peito mamar, após um chorinho bom e mamou por cerca de uma hora em cada peito. Uma benção! Uma felicidade sem fim… Sagrado, sublime!! E o engraçado que eu falava bem alto: MEU BEBÊ, MEU LINDO BEBÊ!!! E não pensava em qual sexo, porque não olhei imediatamente para saber. Achei engraçado não me preocupar em saber logo de pronto, mas sim de contemplar aquele ser maravilhoso que tive a oportunidade e a capacidade de gerar no meu ventre. Mariana e Dan que disseram do sexo e daí fui tirada do estado de transe, maravilhada: é uma menina!! Pedro acordou, chamado por Mariana e chegou no banheiro correndo e passando entre as pernas daquelas cinco mulheres que naquele banheiro se espremiam e que estavam na sua frente. Ainda absorto naquela beleza de ritual, começou a chorar e a dizer: nasceu, mamãe, nasceu… Minha irmã!! E chorando todos… E eu disse a Pedro: qual o nome você prefere para sua irmã, que você estava em dúvida, Emília ou Iolanda? E
daí ele escolheu: Iolanda, mamãe! E lindamente Melania começa a acarinhar meus cabelos e a entoar a canção Iolanda de Pablo Milanez e Chico Buarque enquanto eu tentava cantar junto, com a voz embargada e só chorava e ria e silenciava, chocada e sem acreditar: Esta canção não é mais que mais uma canção… Quem dera fosse uma declaração de amor… Iolanda, Iolanda!!!
Logo após, fomos todos para a cama, deitei aparada por Dan, por Mariana, Melania, Tati e Jean. Esperamos o cordão umbilical parar de pulsar e Jean e Pedro cortaram-no emocionados (para quem não sabe, há um arsenal de materiais de uso levados pelos profissionais envolvidos num parto domiciliar tanto quanto há num parto hospitalar)… Há muita responsabilidade num parto domiciliar, até demais. Pedro adorou tudo! Não esquece jamais de cada detalhe deste dia. E fez-se uma festa na casa de Tati até amanhecer. Com aquela casa repleta de mulheres fortes, alegres e com dois homens felizes e dignos de estarem ali ao nosso lado e de terem ajudado tanto. Eram homens e mulheres em cada um de nós todos ali. Liguei primeiramente, logo que Iolanda nasceu para dr. Jorge Kuhn e Esmerinda Cavalcante em São Paulo para contar tudo o que eles me proporcionaram. Eles estavam esperando a ligação e prontamente atenderam ao telefone e emocionados nós todos contamos tudo. Após umas duas horas de descanso na cama ao lado de Pedro, Jean e nossa Iolanda, já era de manhã, minha querida amiga e doula Dan e a linda Tati me ajudaram a tomar banho com toda a paciência e carinho do mundo e a esta altura, mesmo bastante cansadas, demos ótimas risadas e eu em paz, muita paz ao lado daquelas mulheres amigas, fortes, felizes e companheiras que tanto me acolheram.

Pelo cálculo do capurro (que avalia a data real gestacional do bebê pela textura da pele, tamanho da glândula mamária, coloração  da aréola, formato da orelha e pregas da planta dos pés) Iolanda nasceu com 38 semanas e 4 dias. Diferentemente do cálculo da ultrasom e da última menstruação, que estava apontando para 40 semanas e 4 dias. Ela nasceu grande. Já era grande na barriga. Fiquei pensando que se eu estivesse sendo atendida por um médico obstetra que não esperasse o início do trabalho de parto e quisesse “tirar” o bebê antes, fazendo uma cesárea, provavelmente Iolanda teria ido para uma UTI neo-natal, já que os médicos convencionais tem esperado muito pouco e nas 37 semanas já fazem a cirurgia de retirada. Logo, neste caso (ainda bem que não aconteceu) Iolanda teria nascido na realidade com 35 semanas e estaria muito pouco pronta para vir ao mundo, mesmo com os “avanços” da medicina. Então me pergunto: para que? E afirmo veementemente: que bom que pude me informar e escolher o que eu queria e tive acesso a profissionais responsáveis, éticos e humanos. Minha filha nasceu no tempo certo, no tempo dela, com respeito e ética, difíceis infelizmente de serem encontrados hoje em dia!! E não fui abduzida por explicações mentirosas, por absurdos cometidos e arrogados por incompetentes e cheios de má fé, por ausência de informação digna e a serem dadas a mim por direito, mesmo eu não sendo médica e que não “entenda nada do assunto”, como escutei de diversos médicos que estavam atendendo minha mãe no hospital Santa Terezinha este ano onde ela ficou internada. E DEFINITIVAMENTE NÃO É “FRESCURA, EXAGERO, DRAMA, PRECIOSISMO” nascer e parir assim, com calma, tranquilidade, respeito, individualidade. É SAUDÁVEL, É HUMANO, É DIREITO!
Ninguém tirará essa realização de mim… De nós… De todos nós naquele dia… Esta poesia, esta liberdade imensa, este maravilhar, este poder, esta paz, esta tranquilidade, este direito, esta saúde, este conhecimento, esta evolução espiritual, este domínio, este carinho, esta vivência, este doar, este sentir, esta importância, este pulsar, este crescer, este nascer de novo, este confiar, este mar, este reunir em favor do amor, este momento, esta humanidade, este viver… Nada e nem ninguém!! Isso é para a vida inteira e para deixar a vida mais inteira ainda!! Eternamente…

Obrigada, Melania Amorim, Tatianne Frank, Dan Gayoso, Marianna Portella, Vladia Lima, Leila Katz, Jorge Kuhn, Mema Cavalcante, Ana Renata Coelho e principalmente obrigada ao querido amor da minha vida, companheiro, parceiro de todas as horas, Jean, e ao nosso Pedro, Pedrinho, Pedroca por ser esta criança, esta filha tão importante, querida, amada e imprescindível na nossa vida.

Obrigada por me darem uma nova vida!! Hoje tenho com certeza uma nova e linda vida dentro e fora de mim!! E
vocês me proporcionaram isso!!

Ver Melania assistir ao meu parto da maneira que foi com tanto carinho, dedicação, humildade, inteligência e esperar com calma a saída de minha placenta (tive laceração de apenas 1cm e meio e não precisei levar ponto), usando suas mãos, amor e conhecimento da forma mais correta que havia; ver Tati se esmerar nos mínimos detalhes para que tudo corresse bem e me abraçando e cedendo sua casa; ouvir Dan se preocupando com meu plano de parto em todos os aspectos e fortalecer meu pensamento para respirar melhor e relaxar mais, com as suas certeiras e aliviadoras massagens e me segurando nas posições mais emaranhadas possíveis com toda a paciência do mundo; lembrar dos olhos de Mariana me dando tanta paz, buscando me acalmar e enchendo a banheira com mais água quente para me aquecer; perceber minha querida Vladia trazendo suco, colocando as músicas, fotografando com tanto amor, fazendo massagens também em mim; saber que Jorge e Mema estavam sentindo minha entrada no TP de longe e estarem ali esperando minha ligação a qualquer momento para me dar parabéns e me apoiando e colaborando para tudo desde que
tive a maravilhosa oportunidade de conhecê-los; sentir meu Pedroca segurando minha mão, ajudando a encher a piscina, medindo a temperatura da água, falando no meu ouvido para eu respirar melhor e ficar tranquila, ajudando em tudo, mas tudo mesmo; estar com meu Jean perto, presente e parceiro de grande amor ali como um presente divino; tudo isso é realmente inesquecível e próprio da humanização, não só de um parto, mas da vida. Tudo isso foi sagrado demais!!!

E ver toda esta gente aí acima que citei quatro meses depois me apoiando, se preocupando, conversando comigo e ficando junto após a perda da minha querida mãe Avany Cavalcanti Mendes que infelizmente se foi após um AVC em Recife no dia 03.11.2012 num hospital convencional… Dois momentos onde encontrei alento, carinho e respeito: nascimento e morte. Jamais na minha vida eu me esquecerei deste ano de 2012. Pela sorte que tive, mesmo perdendo uma das coisas mais importantes, preciosas e determinantes da minha vida que foi minha mãe (do quanto ela foi imprescindível na formação do meu ser, no cuidar, sensibilidade, caráter e pensamento). Tive sorte. Tive muita sorte de ter humanos por perto. Hoje em dia raros no mundo. E agradeço muito ter recebido isso tudo e nem sei se era merecedora de tanto. Obrigada por tudo, porque o que me deram foi tudo… Nunca se esqueçam disso…
E Tati seguiu me ajudando, ainda compartilhando sua casa onde ainda fiquei por três dias após o parto… Após este período, fomos eu, Jean, Pedro e Iolanda a praia de Maria Farinha enterrar a placenta na areia do mar às 19h do dia 14.07. Era o alimento e o agasalho da nossa filha indo para terra, para o mar… Ela que representa as raízes da criança no terreno da mãe. Mãe-natureza!
E sim, uma mulher pode parir sozinha, como diz Melania Amorim e Jorge Kuhn… Hoje mais do que nunca tenho a plena certeza disso. A mulher tem poder para isso! Depois do nascimento de Iolanda eu concordo plenamente… Mas ter humanos como estes ao lado, assistindo (auxiliando, acompanhando, vendo e vibrando na mesma energia) é fundamental para você acreditar nisso ainda mais e para facilitar o caminho do “ter poder” … 

Obrigada! Vocês foram fundamentais e importantíssimos para o meu empoderamento e para o meu nascer de novo!!

Atualmente, Iolanda está com 6 meses e mama exclusivamente no peito, sem água, chás ou outros alimentos. E pretendo amamentá-la até após os dois anos, da mesma maneira que fiz com Pedro. Não usa chupeta e dorme durante toda a noite, ficando vivazmente acordada durante o dia e me dando todas as alegrias do mundo. Minha florzinha que juntamente com meu Pedrinho e o meu amor Jean dão sentido a minha vida.

Obrigada, eternamente, obrigada…

Luciana Cavalcanti Mendes.
São Paulo, 12 de janeiro de 2013.
Fotos por Vladia Lima
Iolanda mamando, foto de Luciana Cavalcanti


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