Relato de Parto Domiciliar após cesárea (HBAC) – Bruna e Theo


A Bruna me procurou com 36 semanas. Estava decidida por  um parto normal mas ainda não havia decidido se seria em casa ou no hospital. Conversamos e depois de alguns dias ela me falou que não conseguia se ver no hospital.

Se você acha que todo parto tem dor, todo parto tem sofrimento, você tem que ler este relato. Um longo e arrastado trabalho de parto mas sem dor.

E como nem tudo sai como a gente imagina, mesmo nos trabalhos de parto mais  tranquilos, este relato reforça a importância de uma equipe de apoio para transferir uma puérpera quando necessário.

Bruna, deixo aqui meu carinho e gratidão pela oportunidade de acompanhar você nessa  história incrível e por sua vontade de deixar registrada sua história aqui no Mulheres Empoderadas.

 Por Bruna Romeiro

                Meu marido e eu sempre quisemos ter filhos, ele antes mesmo de nos casarmos, em Fevereiro de 2011 decidimos parar com o AC já que nos casaríamos no dia 26/03, e no dia 30/03 foi a ultima menstruação, marido ficou mega feliz, chorou até! E toda vez que ia contar para alguém começava a chorar.

                Tive uma gravidez MUITO tranquila e como a maioria das grávidas, eu queria um parto normal desde meu primeiro filho. Meu ex-obstetra “fazia” parto normal, mas fazia episiotomia também, e quando eu disse que havia lido que não era necessário, ele disse que era sim, que esse “cortinho” de 5 cm faria muita diferença no expulsivo. Mas eu não queria ser cortada, e disse isso a ele, e ele era irredutível, dizia que tinha que cortar sim.

No final da gravidez do Enzo, eu perdi 1kg por semana, não conseguia beber nem água, na consulta de 37 semanas (14/12/2011) perguntei se eu quisesse cesárea se tinha data ainda (afinal várias pessoas que são mega adeptas à cesárea me disseram que era uma maravilha!), e ele me disse que não, que só tinha data para Janeiro, minha DDP era 04/01, então decidi esperar. Na consulta do dia 23/12, o médico atendeu muito rápido e me pediu desculpas, disse que tinha de correr ao hospital pois ia fazer a cesárea do bebê que ia nascer dia 28, mas decidiu nascer no dia 23, e eu (muito burra) perguntei se poderia ficar com o dia 28, ele disse que sim, pediu para voltarmos dia 26  para buscar os papéis da internação.

Arrependo-me muito disso, mas eu ter marcado 5 dias antes me deixa com menos peso na consciência e outra coisa que influenciou muito essa escolha foi a episiotomia, para mim isso é mutilação, ter sua vagina cortada não é nada normal. Mas enfim, fiz a cesárea com exatas 39 semanas, na hora que me mostraram ele eu estava tão dopada que nem o vi direito.

Ele nasceu às 11h16 do dia 28/12/2011, com capurro de 40+3 (graças à Deus, pois depois eu soube que poderia ter sido para menos, até 2 semanas a menos!), ele teve um desconforto respiratório e colocaram ele no oxigênio por um tempinho. E eu só peguei o meu filho umas 17h30! Isso mesmo, 6h após o nascimento dele.

brunaeenzo

No dia seguinte quando o médico passou no meu quarto para ver como eu estava, ele me perguntou “E ai, pronta para a próxima?” e eu respondi que eu nunca mais faria uma cesárea na minha vida.

Em 2013, marido e eu decidimos que começaríamos a tentar o segundo filho em setembro, que até o bebê nascer o Enzo teria por volta de 2 anos e meio, mas em Janeiro o AC que tomamos quando amamentamos, parou de fazer efeito (eu não tomava no mesmo horário sempre) e voltei a menstruar. Fui ao médico para ver alternativas e ele me disse para parar de amamentar, que o Enzo já tinha 1 ano e o leite já não “fazia efeito”, ignorei a opinião dele e decidimos usar camisinha. Mas teve 2x no mês de Março que descuidamos, em Abril eu comecei a sentir uma fome que não era minha e fiz um teste de farmácia e lá estava o positivo, chorei, fiquei com medo da bronca que levaria do marido, quando contei ele me disse “Não precisa chorar, você não queria mais um filho?”

Gravidez do Théo foi tranquila, eu continuava com o mesmo obstetra que fez a cesárea, mas dessa vez ia ser normal, mesmo com episiotomia, eu não ia passar por outra cirurgia e ter de cuidar de 2 bebês.

Uma amiga, Keilla Colombo, me adicionou ao grupo Parto Natural, e quando me apresentei no grupo disse que queria PN, e fui bombardeada, com perguntas como “Você quer ou queria querer” e confesso que me senti ofendida até, muita gente me falou de como fizeram para juntar dinheiro para seu parto domiciliar (que nem passava pela minha cabeça) e era tudo muito lindo e inspirador, mas eu ainda estava muito ligada à plano de saúde, afinal, eu tenho 2, por que tenho que pagar por algo que é meu direito!

Até que tive uma conversa com a Mariana Whitehead, e ela me deu uns puxões de orelha (obrigada Mari!) e me fez pensar em algo, que me fez ficar ainda mais arrependida pela cesárea do Enzo, “Se você chegar no médico e pedir para tirar o apêndice ele não vai tirar, a menos que seja preciso, por que o bebê o médico tira sem precisar?”

E depois disso acordei para a vida e comecei a pesquisar muito, a me empoderar, e empoderar o marido também, afinal ele precisava estar 1000% ao meu lado, mostrei vídeos, falei dos procedimentos desnecessários que os bebês sofrem ao nascer.

Na consulta com 36+3 semanas, o médico me examinou e me disse, “Você não pode entrar em trabalho de parto, com 38 semanas a gente vê o que faz”, assim que entramos no carro disse ao Elcio, “Aqui eu não volto nunca mais”.

Chegamos em casa e procurei a Gisele, que já tinha me dado vários “puxões de orelha” também, e perguntei sobre doulas e tal, e ela me disse que se fosse parto domiciliar ela seria minha doula com muito prazer, pois ela estava sem trabalhar em hospitais por causa da Sophia, foi ai que comecei a cogitar o PD. Já havia lido em vários relatos de parto natural em hospital, que as mulheres diziam “O próximo nasce em casa”, e eu já estava sofrendo antecipado desde o início da gestação de ficar no hospital sem o Enzo, e o Théo é o nosso ultimo filho, e eu não poderia passar por essa vida sem parir, então conversei com o Elcio, e ele ficou meio receoso, mas eu estava decidida.

Então comecei a difícil tarefa de encontrar uma parteira que pudesse me atender, minha DDP era 17/12, podendo chegar até 31/12 ou mais, a maioria das com quem falei iam viajar, ou não dava mais para pegar gestantes com essa DDP, até que consegui encontrar a Camila e a Adriana, que poderiam me atender. Pronto, encontro marcado com a Gisele para o dia 20/11, com a Camila e a Adriana para 22/11, e com a Mariana (para ver se ela poderia ser o backup) para 27/11.

Nos encontros com a Gisele, Camila e Adriana, foi tudo bem, elas esclareceram nossas dúvidas, mas elas me disseram que o Elcio parecia que não queria isso, e que apesar de ser o meu corpo, o filho também era dele, que ele tinha que concordar. Quem conhece meu marido sabe que ele é muito caladão, é o jeito dele, e o que me matava é que eu não me sentia apoiada, ele não falava nem que sim nem que não, ele não falava “Sua louca, meu filho não vai nascer em casa” e nem “Nossa que legal, é isso que eu quero”. Mas depois da consulta com a Mariana, ele entendeu que se tivesse que dar algo errado daria em casa ou no hospital e isso o tranquilizou.

No dia 12/12, acordei 6h30, pois tinha consulta, eu havia dormido muito mal naquela noite, quando foi umas 7h entrei no banho e senti uma dorzinha igual de cólica menstrual, sempre tive cólicas muito fracas, e pensei comigo “Chegou a hora”, mal sabia eu que ainda tinha quase 41h até o Théo nascer. Continuei no chuveiro por mais um tempo, e as dores de cólicas vinham de tempos em tempos, a cada 10 min.

Então às 9h liguei para a Gisele, ela me disse para baixar um aplicativo para contar as contrações, para eu monitorar por 20 min e depois ligar para ela novamente. O intervalo era a cada 7 min, ela me disse para avisar a Camila e a Adriana, só para elas saberem que as coisas estavam acontecendo.

Por volta de 14h a Gisele e a Carol chegaram em casa, e foram monitorando as contrações, só que eu não sentia a contração no começo nem no final, sentia só os picos, então elas colocavam a mão na barriga para saber quando começava para contar o tempo, eu tinha contrações mas elas começaram a ficar bem irregulares.

Umas 15h, eu acho, a Adriana chegou na nossa casa, monitorou o Théo, as contrações, e estava tudo bem, mas as contrações ainda irregulares, então ela sugeriu que eu andasse para ver se as contrações ficavam ritmadas, fomos eu, a Gi, a Carol, a Sophia e o Enzo. Quando eu andava vinham muitas contrações, acho que não dava nem 5 min de intervalo, mas era parar de andar que perdia o ritmo. Mas eu não queria andar, eu não estava com nenhum pouco de vontade de andar, eu queria ficar quieta, não que estivesse com dor, a dor era a mesma desde às 7h da manhã, a única coisa é que ela estava ficando ”comprida”.

Umas 16h o Elcio foi levar o Enzo na casa da minha mãe, que era a única pessoa que sabia que eu estava em TP. Como não queria andar, fiquei na bola, no chuveiro, por volta de 19h, a Adriana decidiu fazer exame de toque para ver como estava a dilatação, e estava de 3 para 4 cm! Fiquei muito feliz, afinal achei que ia estar com 1 cm ou nada, rs.

Então elas me aconselharam a descansar, já que eu estava cansada, afinal não havia dormido quase nada na noite anterior, a namorar, falaram para o Elcio me fazer uma massagem, me falaram para aproveitar, já que as minhas contrações eram muito suportáveis.

Mas como um passe de mágica, assim que todo mundo foi embora, as contrações ficaram regulares, intervalos de 4 min e duração de 1 min. Umas 23h liguei para a Gi, pois já estava com ritmo há um tempinho.

Mais ou menos 1h30 ou 2h as Gisele, a Sophia e a Kelly chegaram em casa, a Kelly foi deitar na cama do Enzo para descansar, a Sophia dormiu no berço do Théo e eu fiquei na sala com a Gisele, falando mais que minha boca, rsrs. Eu falei muito que o Théo tinha que nascer na sexta-feira 13 até 23h59, para não virar o terceiro dia.

Umas 7h a Camila chegou, monitorou o Théo, as contrações, sempre com a mão na minha barriga, pois eu só sentia os picos. Carol chegou em casa umas 8h, ela disse que tinha me acompanhado o dia todo no dia anterior, e não iria perder o nascimento do Théo, rsrs. E às 9h, a Gi e a Kelly foram embora, que as contrações perderam o ritmo, mas não pararam.

Na hora do almoço mais ou menos, eu não conseguia, e nem tinha vontade, de comer nada, era comer que eu vomitava, então eu estava tomando muita água, isotônico, sorvete, e às vezes comia um pedacinho de chocolate.

Quando deu umas 13h a Camila decidiu fazer o toque, e eu estava de 5 cm para 6cm, e como estava novamente sem ritmo, ela me explicou que poderia ficar um tempão assim ainda, e apesar de não sentir dor (a dor era muito parecida com fazer muitas abdominais e ficar com a barriga dolorida) isso me deu uma desanimada, afinal o Théo tinha que nascer na sexta até 23h59, rs.

A Gi e a Kelly voltaram umas 14h, e elas e a Carol me aconselharam a desencanar de vez, a dar uma volta no shopping, ir ao cinema, ir ver o Enzo (que eu não parava de falar nele), o que todas elas me disseram é que se eu ficasse pensando “Estou em TP, estou em TP” a coisa não ia andar, que eu tinha que esquecer, andar me distrair, e já que as minhas contrações não estavam doendo (o que me incomodava era a sensação de bexiga cheia o TEMPO TODO! E eu ia no banheiro e nada do xixi!). Kelly foi embora pois tinha um trabalho para fazer, então a Carol nos convidou para irmos à casa dela na piscina, eu e a Gi topamos, fui na minha mãe busquei o Enzo e seguimos a Carol, a Gi iria depois de arrumar as crianças.

Quando chegamos na Carol ficamos eu e o Enzo na beirada da piscina só molhando os pés, eu já estava sentindo a dor de cólica constantemente, ela não parava praticamente, mas era bem suportável (tinha a mesma intensidade desde o começo), eu acho que foi por termos andado de carro e eu ter chacoalhado.

Eram umas 19h30 e decidimos ir embora, e antes de irmos a Carol verificou o coração do Théo e ele estava numa posição bem baixa na barriga, mas estava tudo normal, e ela olhou se o Théo não estava no canal de parto, o que me animou, pois isso queria dizer que já estava na quase na hora.

Deixamos o Enzo na minha mãe e fomos para casa, eu até cochilei um pouco no carro, eu estava exausta, não por dor, mas por não dormir, chegamos em casa umas 20h30 e o Elcio foi arrumar umas coisas e eu decidi ficar embaixo do chuveiro no banquinho de parto, então a dor parou e comecei a sentir vontade de fazer força e como a vontade não era insuportável (já li que não dá para não fazer força quando é a hora) resolvi fazer força quando desse vontade, eram 21h quando minha bolsa estourou, liguei para aGi e contei o que estava acontecendo, e ela me disse para ligar para a Camila e a Adriana, o Elcio ligou, nem lembro para quem, mas ligou e eu conversei, acho que nessa hora entrei na tal partolândia, pois não me lembro claramente de mais nada, rs.

Eram umas 21h50 e a Gi me ligou falando que estava chegando, e eu disse a ela que a vontade de fazer força estava ficando muito grande (ela me disse depois que não acreditou muito pois eu estava muito normal no telefone, rsrs), e ela me falou para deitar a cabeça no travesseiro e deixar o bumbum pro alto, nossa, isso doeu, e como doeu! O Théo querendo sair e eu numa posição que não ajudava em nada, rs.

Toda a mulherada chegou junto em casa por volta de 22h ou 22h10, vieram a Kelly, a Gisele, a Beatriz e a Sophia (filhas da Gi), a Camila, a Olívia (ela veio auxiliar a Camila, pois a Adriana teve que ficar acompanhando outro parto) e a Carol.

Lembro que a Olívia foi a primeira que entrou na sala, e eu olhei para ela e disse “Me ajuda, por favor!” Ela disse que ia me ajudar, e pediu que eu me sentasse no sofá para ela ouvir o coração do Théo, ou ver dilatação, não me lembro ao certo, e eu disse que não dava para sentar no sofá que doía.

Então a Gi subiu no sofá para eu me apoiar nela e ficar bem na beirada, enquanto isso o Elcio e a Bia tentavam encher a piscina, a Olívia me examinou e disse que não daria tempo.

gi e bruna

Me falaram para sentar na banqueta e fazer força quando sentisse vontade, o Elcio se sentou ao meu lado e ficou me incentivando, nós olhávamos o Théo no espelho, eu me lembro que pedia água com muito gelo, o tempo todo, mesmo fazendo força queria água, rs.

13012 Gisele e Bruna

Eu me lembro que a Olívia começou a vocalizar e fazia sinal com a mão para eu fazer como ela, e me lembro que a Gi começou a cantar uma música que falava de nascimento, e segundo o Elcio, no primeiro “Ahhhhhh” que fiz o Théo nasceu, nasceu sexta feira, 13 de Dezembro de 2013 às 22h37, com 3,6 kg e 50 cm.

O expulsivo nada mais doía, eu só sentia o tal circulo de fogo, ardeu bastante, mas não doeu.

Assim que o Théo nasceu eu não senti mais nada, passou tudo, não tive laceração, eu queria comer, estava faminta!

Bruna e Theo

Infelizmente, eu tive um hematoma na vulva (alguma veia rompeu e ficou enchendo a região de sangue), tive que ir ao hospital para drenar o sangue e por isso não me deixaram comer.

Chegando no hospital, a sorte é que meu backup era a Dr. Mariana, pois sofremos um certo preconceito por ser PD, melhor nem comentar, mas depois que fui para o quarto, umas 3h30, todas as enfermeiras que estavam de plantão passaram pelo meu quarto perguntando o que aconteceu, onde estava o bebê entre outras perguntas.

Mas mesmo com esse imprevisto, se eu e o Elcio tivermos mais 10 filhos TODOS nascerão em casa e ele concorda comigo. E eu digo a todo mundo, que ninguém deveria passar por esta vida sem um PD, é bom demais! Eu acho que eu não sentir dor, em partes, foi por estar em casa e me sentir segura.

bruna e elcio

Depois do parto, o Elcio ganhou parabéns das parteiras, pois elas disseram que ele estava muito mais empenhado que alguns pais que falam que querem PD e na hora H não é bem isso. E eu também ganhei parabéns, por ter aguentado tanto tempo e não ter pedido anestesia ou para ir ao hospital, ainda mais pelo TP ter se arrastado tanto.

bruna

Sei que o relato já está imenso, mas quero agradecer à todo mundo que me ajudou no empoderamento pelo PD, ao meu marido que foi muito companheiro, e que me acompanhou na minha “loucura”.

Ah, e uma foto do Théozinho, como diz o Enzo:

theo


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