Quando o bebê entra em sofrimento


Esse é um dos assuntos mais digitados nos sites de busca, que trazem as mamães ao blog. Por isso, vou colocar aqui a minha opinião. A opinião de quem já sofreu uma cesárea por “sofrimento fetal agudo”.
Eu tenho arrepios quando ouço que uma mulher “ganhou” uma cesára por diagnóstico de “sofrimento fetal”. Esse nome é muito pesado não é? Pior ainda é o que eu dizia quando meu 2o filho nasceu “O médico indicou a cesárea por liquido aminiótico muito baixo, o que PODERIA colocar meu filho em sofrimento fetal!”…
A nomenclatura foi oficialmente usada até 1999 – SFA: sofrimento fetal agudo e SFC – sofrimento fetal crônico. Agudo quando era diagnosticado durante o TP, geralmente diagnosticado por alterações da asculta fetal,  e Crônico quando era diagnosticado antes do TP em gestações de alto risco.
O fato é que sofrimento fetal é MUITO usado como justificativa para cesáreas (pior são as eletivonas, agendadas mesmo após esse diagnóstico – poxa! Se o bebê está em sofrimento, será que realmente é aconselhável agendar uma cesárea para o dia  seguinte, para dali a 2 dias quando será o plantão do obstetra??). Com esse nome amendrotador, qual mãe ficará tranquila quando recebe essa notícia? Principalmente aquelas desinformadas, assim como eu era, quando recebi o diagnóstico. Como já disse aqui em vários posts, HOJE não acredito que minha filha estivesse realmente em SFA (ela nasceu em 1998, logo a terminologia usada).   Ela nasceu cianótica (roxinha), foi uma correria para acharem um respirador com O2, mas qual bebê não nasce cianótico em uma cesárea? Ela teve apgar 09 e 10. 
O que o apgar tem a ver com isso?
Quando o bebê nasce, ele é avaliado quanto a sua vitalidade recebendo “notas” de 0 a 10 no primeiro e quinto minutos de vida – Este é  o tal teste de Apgar. Também há a avaliação do PH do sangue do cordão umbilical. Esse exame é o único que pode realmente atestar se houve sofrimento fetal ou não. Justamente por poder ser avaliado apenas depois do nascimento, o termo foi alteraldo para “frequencia cardíaca não tranquilizadora”, pois antes do nascimento não há realmente atestar que o bebê está em sofrimento fetal. É possível apenas detectar as FCF não tranquilizadoras. OK, o nome também não é tão bonito, mas é bem melhor que sofrimento fetal, não é?
A maioria das gestantes se preocupa, e muito, com o bem estar de seu bebê. E a grande maioria, deposita a confiança do bem estar do seu bebê nas mãos de seu obstetra.
É fato que durante o trabalho de parto, lá no auge dos 5 ou 6 cm de dilatação, é impossível nos ligarmos no que está acontecendo nos mínimos detalhes. E é nesse momento que é importante ter ao nosso lado alguém para  nos assistir e apoiar em quem confiamos, e que tenha o conhecimento e experiência necessários para atestar que o bebê está bem. Confiança é fundamental… como vamos acreditar num diagnóstico de FCF não tranquilizadora se não confiamos em quem nos assiste?
É fato que o útero materno, é o melhor para o bebê ficar, até o momento do parto. Até o momento que o bebê sinalize que está prontinho para sair, e dê início ao trabalho de parto.
É fato, que muitos obstetras indicam a cesárea salvadora, com diagnóstico de sofrimento fetal agudo, mesmo antes da mãe entrar em trabalho de parto.
É fato, que se o feto bem monitorado durante o trabalho de parto, é possível diagnosticar uma “frequencia cardíaca não tranquilizadora”, e tomar as ações necessárias. As vezes, uma simples mudança de decúbito coloca o bebê em uma situação tranquilizadora.
É fato, que quanto mais natural o parto, as chances do bebê desenvolver uma “frequencia cardíaca não tranquilizadora”, torna-se muito pequena. Partos onde a gestante fica deitada, em posição tradicional (com as pernas no estribo) e regados a ocitocina sintética e a anestesias, são campeões em FCF não tranquilizadora.
Então, porque tantas cesáreas acontecem por diagnóstico do tão temido “sofrimento fetal agudo”?
Porque nossa cultura, infelizmente, rotulou o útero materno como um lugar perigoso, escuro, desconhecido, que aperta e sufoca nossos bebês… Quanto há a existência de circular de cordão então, a cesárea é realmente salvadora (leia aqui o post sobre circular de cordão).
Porque quem está ascultando precisa ter em mente que um episódio de DIP (desacelerações do BCF) ou bradicardias, por si só, não é indicação de cesárea, mas sim indicação de ascultar em intervalos menores. Se os edpisódios se repetem, pode-se partir para uma cardiotocografia para avaliar melhor o padrão, e correlacionar com outras avaliações. Como falei lá em cima, até mudar de decúbito…
Porque em geral o diagnóstico de sofrimento fetal, é feito de modo inadequado.
Porque uma asculta fetal dá muitos falsos positivos, então uma boa asculta é muito tranquilizadora, mas os profissionais que estão avaliando, precisam ser flexíveis na interpretação e na conduta de uma asculta que foge ao padrão esperado. Precisam ter certeza, fazer novas avaliações, antes de indicar uma cesárea.
Por isso mulherada, não aceite diagnóstico de sofrimento fetal, sem uma boa avaliação. Enquanto o bebê estiver no seu útero, ele estará no melhor lugar projetado para ele. Seguro, quentinho, com suprimento de comida.
E se você quiser ficar tranquila, a melhor maneira que encontrei para ter certeza de que a minha filha estava bem, mesmo com o suspeita diagnostico de diabetes gestacional, foi  fazer o mobilograma (contar quantos movimentos o bebê teve após as refeições  – 10 movimentos em 1 hora, são muito bons).  Um bebê que está bem, se mexe. Ou está dormindo…. mas em geral, após as refeições, eles ficam bem ativos, mesmo com pouco espaço na barriga, no finalzinho da gravidez.
Fonte: Esse assunto foi discutido na Lista Parto Nosso, e muitas das informações técnicas resumidamente colocadas aqui, foram explicadas pela Dra Melania Amorim, médica, obstetra, defensora do parto normal humanizado.


Sobre Gisele Leal

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