A superação do abuso, pode ser um parto! 4


“… quando uma mulher se empodera para ter o seu parto respeitado, é como se tomasse pra si o poder sobre sua vida e sua história sexual, e eu realmente precisava disso. Escolhi o parto domiciliar para fugir das intervenções desnecessárias ou até mesmo de uma cesárea (pra quem não sabe, um parto é um evento sexual e uma intervenção desnecessária é, emocionalmente falando, equivalente a um estupro).”
Por Natacha Orestes
Parto da NatachaComeço a escrever este relato com um terrível mal-estar. Porque a minha história é a história de muitas mulheres que não conseguem reagir, que estão presas a um emaranhado de emoções ambivalentes, fragilizadas, com medo e, portanto, caladas. É mais uma história de agressão em que o agressor julga o próprio comportamento como normal e a sociedade quase que toda está ao lado dele. Estou falando sobre violência doméstica, mas não sobre violência física. A minha história é longa, peço paciência. É sobre abuso emocional e violência psicológica. Que não deixa marcas na pele, mas sim cicatrizes invisíveis. Na alma.
Estou grávida de quase 8 meses, e este é o motivo de eu vencer a minha vergonha e botar a boca no trombone. Preciso contar o que passei para conseguir ajuda para pagar o meu parto. Preciso sair da posição de vítima para heroína de mim mesma e do meu filho. Pedir ajuda publicamente é um ato desesperado, e as feministas são algo como “meu único refúgio”. Acho que só mesmo vocês pra compreenderem a complexidade da história e me apoiarem sem me julgar. Ao final do relato eu digo como vocês podem me ajudar.
A gravidez é um momento em que o excesso de realidade machuca qualquer grávida que não tenha planejado a gestação. É uma fase em que o machismo pesa sobre nossas costas. Não dá pra fazer vista grossa para o que acontece com a gente. É machismo e é demais. Começando pelo fato de eu ter perdido uma oportunidade de emprego devido à gravidez. Eu já havia pedido demissão do emprego anterior e estava acertando meu início na empresa nova e a mudança para o Rio de Janeiro. Duas semanas antes de eu deixar São Paulo, descobri que esperava um bebê, e descobri que esperar um bebê torna uma mulher não-contratável, incompetente. Dá pano pra manga falar sobre isso, sobre como o machismo e o capitalismo se encontram para oprimir as mulheres, mas aí é papo pra outra hora.
Nesse momento, a mulher de classe-baixa que conquistou sua independência financeira aos 17 anos e que há 10 se virava sozinha, viu sua autonomia rolando morro abaixo. Junto com ela, sua autoestima e sua esperança. Com a responsabilidade de um filho para criar. Foi o suficiente para que eu entrasse em depressão. Fui passar alguns dias com o namorado para ver como reagíamos a morar sob o mesmo teto e afundei em depressão. Para a minha surpresa, aquele que me fazia longos discursos de amor não enxergou que eu estava precisando de ajuda, mesmo depois de eu tê-la pedido. Quando eu disse que estava triste, a resposta dele foi: queria que o bebê estivesse na minha barriga para sentir a felicidade que você deveria estar sentindo. Porque né, grávidas são obrigadas a se sentirem felizes. E eu não estava. Eram muitas perdas pra processar, era muita responsabilidade pra encarar, e ainda tinha de lidar com a culpa por não dar pulinhos de alegria por carregar um bebê em meu ventre.
No segundo mês tivemos uma briga feia e eu resolvi voltar pra São Paulo. A depressão permaneceu até o terceiro mês, eu não sabia onde terminavam os processos fisiológicos de uma mulher grávida e onde começavam os mentais, a depressão. Era tudo uma coisa só, os enjôos que eu sentia na carne, a dor que eu sentia na alma e a raiva de ter virado uma embalagem de bebê. A gravidez me despersonalizou perante os outros e perante a mim mesma. De um lado, pessoas dizendo que eu não podia “me sentir assim”, pois prejudicava o feto. De outro, o pai dele me xingando por e-mail, dizendo que eu “tomei o filho dele” com a minha volta pra casa. Eu não existia. Eu era um útero e nada mais. Pensei em aborto, mas como sempre desejei a maternidade, sabia que isso estava fora de cogitação. Escrevi a respeito disso no blog que eu mantenho, em um post entitulado Carta aberta de uma feminista ao seu filho

No quarto mês a depressão começou a passar, talvez porque é nesse mês que os enjôos geralmente acabam. Tendo ficado mais aberta ao diálogo, acabei desculpando o namorado pela omissão e pelas barbaridades ditas (mesmo não tendo resolvido ao certo todos os motivos que levaram à briga, irrelevantes para o caso). Eu desejava ter uma família, desejava que meu filho tivesse pai e mãe presentes na mesma medida. Desejava isso principalmente porque a minha família foi toda torta, com direito a pai alcoólatra e marcas de varinha de marmelo nas pernas, sempre imaginei que ter uma família minha pudesse ser a minha redenção. Resolvi dar uma chance a todos nós e voltei para o Rio de Janeiro.
Foi nesse momento que a barriga começou a crescer cada vez mais, e que eu passei a desconhecer o meu corpo (sexualmente falando). Eu precisava de mais delicadeza, paciência e tempo e comuniquei isso ao namorado. Além do mais, sofri abuso sexual quando era pequena e descobri que a depressão que eu havia tido no início da gestação não era só porque me vi na dependência de um homem, e sim porque é natural que mulheres que tenham sido sexualmente abusadas associem sem querer o abuso à gravidez e acabem deprimidas. Comuniquei isso a ele também. Mas no lugar do apoio, ele ficou com raiva por eu ter verbalizado minhas novas necessidades sexuais momentâneas (mais tempo, mais carinho), e passou a me evitar, colocando a culpa pelo distanciamento em mim.
“Como é que isso pode estar acontecendo com uma feminista?”, eu me perguntava. E ficava assim, num misto de indignação, raiva e vontade de fazê-lo enxergar o erro, a falta de delicadeza para comigo em um momento em que eu precisava tanto dele para me reconstruir e seguir em frente. Ele podia ter me dado a mão e me ajudado a superar a história de abusos, ele podia ter apenas tido paciência comigo, mas preferiu me virar as costas e me culpar. Nosso convívio foi ficando insuportável. Eu já não podia demonstrar insatisfação a nada, tinha que engolir todos os meus semblantes, e o pior de tudo: me sentia como se eu fosse um peso, pois quando íamos ao mercado ele sempre reclamava dos gastos, sendo que eu sou uma pessoa simples, de comer arroz, feijão, legumes e um grelhado e não precisar de mais do que isso e produtos de higiene para me sentir bem.
Mas o mais importante dessa história foi e é o meu plano de parto. Descobri com muita leitura, muita pesquisa, que quando uma mulher se empodera para ter o seu parto respeitado, é como se tomasse pra si o poder sobre sua vida e sua história sexual, e eu realmente precisava disso. Escolhi o parto domiciliar para fugir das intervenções desnecessárias ou até mesmo de uma cesárea (pra quem não sabe, um parto é um evento sexual e uma intervenção desnecessária é, emocionalmente falando, equivalente a um estupro). Ele reclamava muito do preço, pois o plano não cobre esse tipo de parto, então eu decidi fazer uma vaquinha  online e espalhar entre meus amigos e familiares para conseguir pagar o meu parto sem o mimimi dele. Ninguém iria me atrapalhar! Muito menos ele. Meu corpo, minha gravidez, meu útero, minha vagina, minhas decisões.
Só que as brigas começaram a ficar cada vez mais insuportáveis, eu tinha que agüentar ele gritando comigo e batendo portas sem dar um pio, me afundando nas lágrimas, me sentindo um lixo por estar passando por aquilo, por ver uma história de abuso se repetindo (minha mãe apanhava do meu pai) e não conseguir fazer nada a respeito. Foi então que o chamei para uma última conversa com o gravador do meu celular ligado. Nessa última conversa, até as minhas calcinhas ele foi capaz de culpar pelo distanciamento e a frieza dele. Disse que eram velhas, que era foda e que desse jeito não tinha como. Infelizmente eu dependia financeiramente dele para comprar calcinhas novas e as únicas que me cabiam eram mesmo as mais larguinhas e velhinhas. Mas sinceramente, e daí? Isso era uma fase, ia passar. O computador dele é lotado de foto minha com calcinha bonita, minha gaveta tem um monte de calcinhas lindas, aquilo era passageiro por causa do meu tamanho. Foi nesse momento que percebi até onde ele era capaz de ir para me culpar e me magoar, e não estava afim de pagar com a minha saúde mental pra ver se ele podia ir mais longe do que aquilo. Gritos, ataques à autoestima, portas batendo? É agressão. Não é normal. Todas nós merecemos equilíbrio e respeito. Imaginei como seria com um bebê nos braços e deduzi: pior, claro.
Voltei pra São Paulo. Perdi dois dias na Defensoria Pública, onde relatei o acontecido para uma advogada que legitimou minha história e me aconselhou a fazer um Boletim de Ocorrência por abuso emocional.  E procurei alguns grupos feministas para apelar à sororidade que tanto defendemos que tenhamos umas com as outras a fim de pagar pelo meu parto e ter a oportunidade de dar à luz não só o meu filho, mas a uma nova mulher, por meio de um parto digno, respeitoso, carinhoso, humanizado. Para contribuir, é só clicar aqui, escolher um valor (a partir de R$5), a forma de pagamento (boleto à vista ou cartão de crédito, podendo dividir em até 12x) e pronto! Também peço para compartilharem o quanto puderem a minha história e o link da vakinha, para quem não tem grana é um modo super válido de me ajudar. Tenho um mês para conseguir 6 mil reais. Pouco tempo, muito dinheiro. Uma ansiedade que não cabe no peito.
Eu não ia publicar a minha história inteira por medo, por pena do ex, por saber que fazer isso é jogar merda no ventilador . Mas não sou eu quem tem que ter vergonha do que aconteceu. Pelo contrário. Cabe a mim não me omitir e mostrar ao agressor que sim, o que ele fez foi agressão e que eu não me calarei diante dos fatos. Cabe a mim abrir a minha história e dar a mão a outras mulheres que silenciosamente passam pelo mesmo que eu e mostrar que sim, que é possível sair desse limbo. Basta ter a difícil coragem de se expor e pedir ajuda.
Obrigada Feminista Cansada pela abertura. De todos os grupos procurados, foi a única que se manifestou, e ainda por cima prontamente.  E obrigada a todos e todas que me ajudarem, sendo transmitindo boas energias, sendo compartilhando o link, sendo com uma doação. Continuem fazendo a diferença.
OBS: caso o valor arrecadado ultrapasse o objetivo, doarei o que sobrar para uma outra grávida que deseja o parto humanizado mas não tem dinheiro pra pagar. Ela é vendedora ambulante daqueles morangos no espeto com chocolate, eu a conheci num terminal de ônibus. Contarei a história dela lá no meu blog em breve. Doem, doem, doem!


Sobre Gisele Leal

- Acompanhamento da Gestação - Preparação para o parto (individualmente ou em grupos) - Consultoria para a escolha de profissionais e locais de parto - Elaboração do Plano de Parto - Dia da Despedida da barriga, barriga de gesso - Acompanhamento do Trabalho de Parto, Parto e Pós-parto imediato - Assistência ao Parto e puerpério - Consultoria em Aleitamento Materno - Fotos do parto, da família e da gestante

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4 pensamentos em “A superação do abuso, pode ser um parto!

  • Stella

    Me identifiquei com o texto… É engraçado que, na verdade, essas atitudes machistas são tão naturalizadas que eu não consegui identificar exatamente o que me fez ficar tão triste e sozinha durante a gravidez. Eu não sabia dizer o que é que estava me deixando tão deprimida, não sabia verbalizar o meu deslocamento, o quão desconfortável era estar em nova identidade, ou mesmo, não estar em identidade nenhuma… Enfim, isso é mais comum do que se pensa, mas como não está materializado em palavras, parece “coisa da sua cabeça”. Muito bom encontrar um texto que traz a tona essas realidades…